4. REPORTAGENS novembro 2012

1. CAPA  A DIETA DA CINCIA
2. CINCIA  AMOR DE FARMCIA
3. ATUALIDADES  FRONTEIRAS EXTREMAS
4. CINCIA  EINSTEIN NO CEAR  AS AVENTURAS E DESVENTURAS DE UMA TEORIA ARRETADA NOS CONFINS DO SERTO
5. CINCIA  D PARA FINGIR SER LOUCO?
6. ZOOM  QUANDO FIZERMOS CONTATO

1. CAPA  A DIETA DA CINCIA
Comidas gostosas so to viciantes quanto drogas pesadas, dizem os cientistas. Por outro lado, novas pesquisas mostram que se alimentar bem  mais simples do que parece.
TEXTO / Marcia Kedouk
DESIGN / Rafael Quick
FOTO / Arthuzzi

Salmo + Alface + Agrio + Nozes: Eis uma mistura tima para o corpo. Veja estas e outras combinaes saudveis nas prximas pginas.

     Comeou com um docinho depois do almoo. Depois, era batata frita a semana toda. gua, nem pensar  s refrigerante. At que arroz com feijo virou uma combinao insuportvel. Para fazer efeito, s se fosse cheeseburguer. Essa  a histria de um crebro viciado e prostitudo: ele sabe que salada  mais digna para a sade, mas gosta mesmo  de gordura e acar e se vende ao primeiro que aparecer com isso. Em troca, libera dopamina, a substncia inebriante do prazer. Nunca foi to claro para a cincia que a comida de hoje tem o mesmo poder viciante da cocana e da herona. A sensao agradvel provocada pela comida estimula o centro de recompensa do crebro, em um processo parecido com o do vcio e da excitao sexual, diz o neurologista e neurocirurgio Jorge Pagura. Hoje, o centro de recompensa  alvo de experincias para o controle do apetite. Agora vamos entender isso melhor. E, mais importante, mostrar tambm como novas descobertas da cincia podem revolucionar sua dieta. Bom apetite!

SEXO, DOGS E HOT ROLL
     Voc vive em 2012. Mas seu crebro empacou em l por 200 mil a.C. Foi quando surgiram os primeiros humanos anatomicamente iguais a voc e eu, em algum lugar perto de onde hoje fica a Etipia.
     A vida era complicada por l. No era todo dia que dava para caar um biso ou uma gazela. E, nos dias em que no dava, o jeito era apertar o cinto. Por causa disso, o corpo desenvolveu um mtodo interessante de sobrevivncia: nos transformou em camelos alimentares. Passou a estocar comida em corcovas de gordura, que carregamos principalmente na barriga e nos quadris. Quando aparecia uma gazela, comamos mais do que precisvamos. O excesso ficava acumulado. E nos tempos de gazelas magras o corpo se alimentava dessa gordura. Era o jeito.
     Para fazer com que comssemos mais do que o necessrio a cada caa, o crebro criou um mecanismo engenhoso: nos recompensar com doses cavalares de prazer cada vez que comamos algo que fosse fcil de ser absorvido pelo corpo para virar estoque de gordura. No caso, a prpria gordura animal da carne de caa. E a que entra o centro de recompensa do crebro: comeu carne gordurosa, altamente calrica, ganhou uma dose de dopamina.
     E nosso crebro no mudou de l para c  por isso mesmo, os churrascos continuam to populares. Mas o mundo  outro, claro. Hoje, ns podemos ter comidas altamente palatveis e calricas em qualquer lugar, a qualquer hora. E isso fica evidente na nossa cintura, diz o bioqumico e neurobilogo Stephan J. Guvenet, pesquisador da Universidade de Washington.
     Esse mecanismo de estocagem de gordura recompensada por dopamina no comeou no homem. Na verdade, herdamos dos nossos ancestrais. Qualquer mamfero tem o mesmo mecanismo (se no tivesse, no existiriam tantos Garfields na vida real). E esse nosso trao em comum com os nossos primos de outras espcies ajuda a desvendar um pouco mais sobre como funciona a nossa relao com comida.
 o caso de um estudo do Scripps Research Institute, nos EUA. Eles alimentaram um grupo de ratos com rao comum e outro com bacon, salsicha, comida congelada, doces e outras maravilhas da dieta moderna. Depois de 40 dias, os que receberam rao se mantiveram magros, e os outros, como era de se esperar, ficaram obesos. Mas apareceu uma novidade a: o crebro dos ratos que s comiam porcarias j no era mais o mesmo ao fim do experimento. Eles desenvolveram resistncia  dopamina e, portanto, ao prazer causado pela comida. Ento passaram a devorar essas guloseimas que dominam a nossa mesa compulsivamente, para obterem a mesma carga de prazer que conseguiam no incio da dieta. Mesmo quando os cientistas comearam a dar choque em qualquer um dos ratos que se aproximava da refeio hipercalrica, eles continuavam caindo de boca, porque nada mais no mundo importava para eles, nem a dor, nem a Minnie  sim: eles pararam tambm de fazer sexo, s queriam saber de comer. Viviam pela prxima dose de dopamina.  exatamente o que acontece com usurios de crack.
     A semelhana dos alimentos-porcaria com as drogas no para por a. Outros estudos mostram, por exemplo, que a gordura estimula a produo de endocanabinoides, substncias parecidas com as encontradas na maconha. O chocolate libera outro componente, a feniletilamina, similar ao das anfetamirias. E s de olhar voc j pode estar exposto aos efeitos das drogas alimentares, concluram os cientistas do Brookhaven National Laboratory, nos EUA. Eles compararam imagens do crebro de quem tem compulso por comida e de quem  obeso, mas no tem um vcio propriamente dito em alimentos. Quando sentiam o cheiro de seu prato favorito, os compulsivos tinham uma grande descarga de dopamina no crebro, o que no foi observado no outro grupo. O mdico Gene-Jack Wang, que conduziu o trabalho, j tinha identificado em outro estudo que dependentes qumicos apresentam resposta cerebral semelhante quando veem imagens de algum consumindo drogas. Isso sugere que algumas pessoas tm uma reao exagerada no crebro quando expostas a coisas agradveis, portanto so levadas ao vcio. Estaria aqui a pista que explica por que alguns ficam satisfeitos com uma bola de sorvete e outros precisam do pote inteiro.
     Batata frita, po, macarro, bolo, bolacha, chocolate, refrigerante. Todos eles fazem parte da faco do p branco: so feitos de farinha, acar e sal, as cocanas da cozinha. Assim como uma droga pesada, elas passam por um processo de refinamento atroz, em que saem as fibras, os minerais, as protenas e outros nutrientes e fica s o que interessa para o crebro: a energia pura de rpida absoro.
     E os perigos tambm so dignos daqueles que as drogas oferecem: dentro do seu corpo, o sal, amplamente usado para realar o sabor dos produtos, inclusive nos doces e nos refrigerantes, aumenta a presso arterial, j que o sdio atrai as molculas de gua para si e faz crescer o volume de sangue nas artrias. Presso alta significa maior risco de ter um derrame ou ataque cardaco.
     J a farinha e o acar vo direto para o sangue. Para dar conta, o pncreas dispara a produo de insulina, o hormnio que transforma carboidrato em glicose e depois estoca essa energia em forma de gordura nas clulas, O crebro agradece liberando dopamina e o resultado  uma sensao de prazer que acaba em minutos (ou segundos). E a voc quer sentir essa emoo de novo  e tome mais carboidrato refinado, que inunda o corpo com insulina, que manda o excesso de gordura para dentro da clula.
     Chega uma hora em que os rgos desenvolvem resistncia  insulina e o pncreas precisa produzir cada vez mais para conseguir o mesmo efeito. At que uma hora ele pode pedir arrego e zerar a produo de insulina, causando diabetes.
     O excesso de acar tambm pode detonar o fgado. Bom, no exatamente de acar, mas da coisa mais utilizada como substituta da glicose nos alimentos de supermercado: a frutose. Ela  quase exclusivamente metabolizada no rgo, onde vira uma gordura chamada triglicrides.
Frutose em excesso sobrecarrega o fgado, diz o cientista de alimentos Edson Creddio. E  fcil exagerar na frutose. Essa substncia  o acar natural das frutas. Mas a principal fonte dela na nossa alimentao no so mas e melancias, mas refrigerantes, pes, molhos e outras comidas processadas. No  por acaso. Na dcada de 1970, a indstria alimentcia comeou a produzir um xarope de milho com alto poder adoante e baixo custo de produo, que, por isso mesmo, dominou as prateleiras, inclusive a seo saudvel, em que esto cereais e iogurtes.  o HFCS (high-fructose corn syrup) , tambm descrito nas embalagens como xarope de acar ou xarope de glicose. Ele leva aproximadamente 55% de frutose e 45% de glicose. E por que essa mistura est em quase tudo? Porque ela deixa tudo mais gostoso. Ou seja: faz o crebro produzir mais dopamina. E voc gastar mais dinheiro para sentir o prazer dessa dopamina mais e mais vezes.
     A sada, ento, seria apelar para os adoantes artificiais, certo? No exatamente. Pesquisadores da Universidade do Texas acompanharam 474 adultos por dez anos e perceberam que aqueles que tomavam refrigerante diet frequentemente tiveram aumento de 70% da circunferncia abdominal em comparao com quem no bebeu refrigerante. Entre os que bebiam duas ou mais vezes ao dia, o crescimento da pana foi 500% maior. A hiptese  que doces disfarados podem enganar seu paladar, mas no o crebro, que manda o corpo se preparar do mesmo jeito para digeri-los, aumentando a salivao e a produo de insulina. Como a promessa no se cumpre e no lugar de um alimento calrico vem um magrinho, a necessidade energtica no  suprida e nada de dopamina. Esse quadro pode levar  vontade de compensar com algo mais engordativo, como um brigadeiro, na tentativa de chegar  sensao de prazer. E se voc no compensar... Com menos energia do que a prometida, o corpo desacelera e economiza gordura. Um beco sem sada, como mostrou uma pesquisa da Universidade de Purdue, nos EUA. Por duas semanas, um grupo de ratos foi alimentado com iogurte aucarado, e outro recebeu iogurte com adoante. Depois, ambos foram liberados para atacar um pudim de chocolate. Quando voltaram aos iogurtes, eles tiveram comportamentos diferentes: a turma do adoante se acabou no diet do mesmo jeito como fazia antes. Mas os ratos do acar comeram menos na refeio seguinte ao pudim.
     Concluso: viraram glutes menos compulsivos que a turma do iogurte diet.
     Outro estudo americano, da Universidade de Minnesota, analisou a sade de 16 mil pessoas por nove anos. Em comparao com quem no bebeu refrigerante, os que tinham o hbito de ingerir uma lata da bebida diet por dia apresentaram 34% mais risco de desenvolver a chamada sndrome metablica, que  quando voc acumula gordura abdominal, fica hipertenso, tem altos ndices de colesterol ruim e resistncia  insulina. Para dar uma ideia do tamanho da encrenca, saiba que entre as pessoas que comiam fritura regularmente o aumento do risco de sndrome metablica foi de 25%, j que frituras so altamente calricas (um grama de gordura tem nove calorias, contra quatro do acar).  uma porcentagem alta, mas bem menor se comparada aos 34% da opo, digamos, mais saudvel.
     O po integral nosso de cada dia tambm no  nenhum santo. Muitos, incluindo as linhas light e com gros, tm a mesma quantidade de calorias dos brancos, so feitos com farinha de trigo comum e uma menor porcentagem de farinha integral. Algumas marcas 100%, integrais so mais calricas at do que po branco, j que levam acar na composio  para ficarem mais saborosas.

PARADOXOS ALIMENTARES
     Mas no desanime. A cincia tambm est descobrindo que alguns viles da alimentao latem mais do que mordem. O colesterol e sua fonte na nossa alimentao, a gordura animal, so um exemplo. Por muito tempo se pensou que ele era responsvel por todo tipo de crime contra a humanidade. Os maiores estudos feitos sobre isso foram conduzidos pela Escola de Sade Pblica de Harvard e acompanharam mais de 300 mil pessoas durante 23 anos. Os resultados mostraram que, para a maioria, a gordura que a gente come tem pouca influncia (de 10 a 25%) na gordura que efetivamente circula pelo corpo. Essa  fruto de todas as calorias que ingerimos  e que o organismo guarda na forma de gordura como reserva. Outras pessoas, como os diabticos e obesos, sentem bem mais o efeito do colesterol  ai  preciso manter mesmo o consumo no cabresto.
     O que est esclarecido  que vtimas de doenas cardiovasculares tm veias e artrias entupidas de gordura e altos nveis de colesterol ruim. Como gordura animal aumenta a quantidade de colesterol ruim, parece bvio dizer que cort-la acaba com o problema. Mas os pesquisadores comeam a trabalhar com variveis mais complexas: o excesso de gordura corporal, e no o colesterol isoladamente,  o que multiplicaria as chances de algum ter uma doena cardiovascular. E todo tipo de comida produz gordura no corpo  os elefantes, que so mais vegetarianos que a Gwyneth Paltrow, no nos deixam mentir.
     O chocolate  outro que no pode carregar tanta culpa pelos maus hbitos alimentares. Cientistas da Universidade de Cambridge analisaram a incidncia de doenas do corao e derrame em 114 mil pessoas. Quem comia mais de duas barrinhas por semana teve 36% menos risco de ter doenas cardiovasculares e 29% menos chance de sofrer um derrame, se comparado a quem reduzia a menos de duas vezes por semana. Na Universidade da Califrnia, um grupo de pesquisadores foi mais alm e observou que chocolate pode at emagrecer. Entre os mil voluntrios avaliados, os que consumiam regularmente, ainda que com moderao, eram mais magros do que os outros. Eles acreditam que, apesar das calorias, podem existir componentes nessa iguaria que favoream a queima de gordura. Mas as causas ainda no esto esclarecidas, e os estudos continuam.

MEDIDA CERTA
     Vamos ser sinceros aqui. A gente sabe que quase todo mundo prefere comer lasanha em vez de arroz cateto com amoras silvestres, mesmo se levar um choque cada vez que optar pelo prato gordo. Ento, se  para comer coisas gostosas e dopaminrgicas, que seja de um jeito mais saudvel. E a cincia tem dicas bacanas para isso. Por exemplo: 300 estudantes americanos participaram de um estudo em que foram separados em dois grupos. Os integrantes de um receberam uma rosquinha de po inteira. Os do outro, a mesma rosquinha cortada em quatro partes. O pessoal da segunda turma se satisfez com menos. Vinte minutos depois, todos eles foram liberados para comer outro prato, desta vez  vontade. Quem tinha recebido a rosquinha em pedaos ficou satisfeito de novo com menos quantidade, um sinal de que o apetite j estava controlado. Os cientistas acreditam que dividir a comida em pequenas pores pode causar uma iluso de tica no crebro: a quantidade parece maior e, por isso, a sensao de saciedade  maior. Alm disso, quando os alimentos esto cortados em pores menores, a tendncia  comer mais devagar, dando tempo para o crebro entender que a quantidade de energia que voc colocou para dentro j est adequada.
     Outras pesquisas mostram que os nutrientes de certos alimentos podem ajudar a queimar gordura, trazer saciedade e melhorar a sade.  o caso das substncias termognicas, que aumentam a temperatura corporal e aceleram o metabolismo basal, levando a um maior gasto de energia.  capsaicina, presente na pimenta, faz parte desse time. As gorduras boas, como a dos peixes, conhecidas como mega 3, alm da das castanhas e do azeite de oliva, tambm tm superpoderes. Pesquisas indicam que quem come castanhas entre as refeies permanece satisfeito por pelo menos 90 minutos a mais do que quem faz lanchinhos com pouca gordura e bastante carboidrato, como po integral com queijo cottage. Outra pesquisa, da Unifesp, em So Paulo, mostrou que animais com epilepsia alimentados durante 60 dias com mega 3 nas doses recomendadas para seres humanos  ingesto de peixes ricos nesse componente, como salmo, atum e sardinha, trs vezes por semana  apresentaram alguma melhora no crebro, com a formao de novos neurnios.
     Brcolis e espinafre tambm fazem bem para a cabea. O cido alfalipoico encontrado neles aumenta o fluxo sanguneo nos tecidos e melhora a conduo dos impulsos nervosos.

COMBINAES SAUDVEIS
     No mundo da alimentao, nem sempre um mais um  igual a dois. s vezes d trs, quatro. Os nutrientes interagem entre si, melhorando ou dificultando a absoro pelo organismo, diz o cientista de alimentos Edson Creddio. Quando voc come algo rico em carboidrato, como batata frita e po, fica com fome logo, j que a digesto dos carboidratos  rpida. Mas se voc combin-los com alguma coisa que d mais trabalho para o corpo, como as protenas, a digesto fica mais lenta e demora mais para o apetite voltar.
     E isso pode ajudar na hora em que a vontade de comer porcarias gostosas bater. Se voc misturar batata frita com uma carne magra, como patinho ou maminha, voc vai comer menos batata frita. Bom para ambas as partes, pelo menos na medida do possvel: voc consome a droga ao mesmo tempo em que d uma fora para a moderao.
     Melhor ainda se voc acrescentar fibras ao mix. Elas esto presentes em vegetais como alface, cenoura, espinafre e brcolis. E tm o mesmo efeito diluidor de apetite. O feijo, rico em fibras, faz um par perfeito com o arroz, de fcil digesto. Funciona to bem que um certo pas da Amrica do Sul adotou o arroz com feijo como seu prato nacional  tudo intuitivamente, bem antes de a cincia dos alimentos existir. No fica nisso. Uma pesquisa da Unicamp comprovou que, juntos, arroz e feijo aumentam a concentrao de flor na saliva, prevenindo cries.
     Outro alimento que faz uma boa dupla com o feijo  a rcula (ou qualquer outro que tenha bastante vitamina C). O ferro do feijo no  assimilado automaticamente pelo organismo. Esse nutriente precisa de um composto que se ligue a ele e o torne mais diludo. E quem assume essa funo  o cido ascrbico  a vitamina C.
     Tem o caso do tomate com azeite tambm. O tomate  rico em licopeno, que tem uma ao importante: retardar o envelhecimento das clulas. E a gordura do azeite ajuda a reter o licopeno do tomate (cru ou cozido, tanto faz), turbinando a eficincia dele. Molho de tomate tambm serve, mas os prontos costumam ter a adio de acar, sal e amido  mal negcio.
     J os alimentos ricos em protena animal, como a carne vermelha, tendem a acelerar o envelhecimento das clulas. Eles liberam uma substncia chamada amina heterocclica, que ao longo dos anos pode danificar o DNA, que fica no ncleo das clulas. DNA danificado  um sinnimo tcnico para envelhecimento  e para uma propenso maior a doenas como o cncer.  por isso que os bifes no so exatamente do time do bem. Mas, se a carne for fraca, combine a carne com alecrim. Quando aquecido, o alecrim solta cidos que protegem o DNA, diminuindo os efeitos malficos da carne.
     Pois . O crebro humano pode continuar to tosco quanto o de 200 mil anos atrs, nos recompensando com uma injeo de prazer cada vez que comemos demais. Mas esse mesmo crebro  o responsvel pelos avanos cientficos que nos ajudam a lidar melhor com essa compulso, e a mitigar os efeito nocivos dela. No fim das contas,  uma equao positiva para o nosso corpo. 

BATATA FRITA  Parecia inofensiva, mas nos dominou.

ATRAO FATAL
Como a mente fica viciada em comida.

AMOR  PRIMEIRA VISTA  Os quiabos que nos perdoem, mas beleza  fundamental. Nossos instintos nos fazem achar que comidas mais calricas so mais bonitas  por isso mesmo a estrela da nossa capa no  um repolho.
EU MEREO  Comer estimula o centro de recompensas do crebro, levando  produo de um neurotransmissor ligado ao prazer, a dopamina. A obesidade pode deixar os receptores mais resistentes a ela e fazer com que sejam necessrias doses cada vez maiores de comida para disparar sensaes de satisfao e saciedade.
SEM SERVIO  Se as comunicaes entre os hormnios e o crebro no for boa, comea uma crise. As clulas de gordura produzem uma substncia chamada leptina, e o pncreas libera outra, a anilina. Elas so uma espcie de dedo-duro que avisa o crebro como anda o estoque de energia do corpo. Se as reservas esto baixas, voc sente fome. Se esto altas, fecha a boca. Estudos mostram que obesos tm falhas na recepo delas no crebro, o que aumentaria bem o apetite.
O SEGUNDO CREBRO  Sim, voc tem um segundo crebro l embaixo. (No to l embaixo). Existem 100 milhes de clulas nervosas no sistema digestivo, que se comunicam o tempo todo com a cabea da turma, l de cima. Quando voc come gordura, por exemplo, o crebro dispara a produo de endocanabinoides, substncia parecida com a encontrada na maconha. Resultado: prazer e... fome.

SOPA, IOGURTE, CEREAIS, PO INTEGRAL  Eles fazem bem, mas tambm podem ser lobos em pele de cordeiro.

PARECE, MAS NO 
Alimentos que parecem estar entre os mais saudveis, mas que nem sempre so.

PO INTEGRAL  A farinha integral  quase to calrica quanto a branca. O que muda so os nutrientes e a quantidade de fibras da primeira opo, que trazem saciedade e fazem voc comer menos. S que a maioria dos pes que a gente come no  100% integral, e, sim, po branco enriquecido com esse tipo de farinha.
CERERAIS  Eles so uma caixinha de surpresas. Vrios tm em sua frmula o xarope de milho com alto teor de frutose, tambm chamado acar de milho. Ele  composto de 55% de frutose, que d trabalho extra para o fgado, e 45% de glicose, que pode sobrecarregar o pncreas. Problemas em dobro.
SOPAS  As industrializadas tm bastante sdio e muitas contm gordura vegetal hidrogenada (a trans), alm de maltodextrina, composto de glicose que provoca uma enxurrada de insulina, hormnio que estoca energia nas clulas na forma de gordura. A melhor pedida para perder peso so os legumes slidos, cuja digesto consome mais calorias.
BEBIDAS DIET  Estudos mostram que o consumo frequente de refrigerante diet acaba com o programa pana zero: aumenta seis vezes mais a circunferncia abdominal em comparao com quem no toma a bebida.

PIMENTA, GENGIBRE, CANELA  Esses temperos aceleram a queima de gortura em at 16%.

ADITIVOS SUPERPODEROSOS
Eles protegem a sade e, de quebra, ajudam a queimar gordura.

PIMENTA, GENGIBRE E CANELA (os termognicos)  So os nutrientes calientes, que despertam gritinhos no corpo: aumentam a temperatura corporal e aceleram o metabolismo basal, levando a um maior gasto de energia. Eles so a capsaicina, das pimentas, o gengibre, e o aldedo cinmico, da canela. Alm da nossa velha conhecida cafena, do caf, e da catequina, do ch verde.
ESPINAFRE, BRCOLIS E BATATA (o cido alfalipoico)  O cido dessas verduras ajuda a diminuir a concentrao de acar no sangue. Tambm d uma fora na regenerao de tecidos danificados, porque aumenta o fluxo sanguneo nessas regies e melhora a conduo dos impulsos nervosos. Por isso  usado at no tratamento de leses neurolgicas e para mitigar os sintomas do Alzheimer.
SOJA, FRANGO, GEMA DE OVOS (a colina)  Ela  fundamental para a formao da membrana celular e do tecido cerebral. Ajuda a derreter a gordura do fgado e a lembrar onde voc colocou as chaves, porque preserva a memria.

TOMATE + AZEITE  nascidos um para o outro: o azeite torna o tomate ainda melhor do que ele j .

COMBOS NUTRITIVOS
Juntos, esses alimentos so melhores do que separados.

SALMO + SALADA DE ALFACE + AGRIO, BRCOLIS E NOZES  As vitaminas A (agrio), D (salmo), E (brcolis) e K (alface) so lipossolveis  ou seja, precisam de lipdios (nozes e gordura do salmo) para serem absorvidas.
CARNE + ALECRIM  O cido rosmarnico captura os radicais livres, e o cido carnsico  anti-inflamatrio. Ambos so encontrados no alecrim e, quando aquecidos, reduzem em 70% a formao de aminas heterocclicas, substncias txicas da carne ligadas ao surgimento de cncer.
CENOURA + LARANJA  A vitamina C combinada com o cido fenlico da cenoura baixa os nveis de colesterol.
FEIJO + RCULA  O ferro (do feijo)  melhor aproveitado pelo intestino na presena da vitamina C (da rcula).
TOMATE + AZEITE  O tomate  rico em um antioxidante chamado licopeno. Os lipdios do azeite ajudam o organismo a reter esse nutriente, que ajuda a retardar o envelhecimento das clulas.
CH VERDE + LIMO  O cido ascrbico do limo estabiliza a catequina, um antioxidante presente no ch verde. Ou seja: tambm atrasa o envelhecimento celular.

PARA SABER MAIS
Wheat Belly  William Davis, Rodale, 2011
Food Synergy  Elaine Magee, Rodale, 2009
Good Calories  Bad Calories, Gary Taubes, Anchor Books, 2007


2. CINCIA  AMOR DE FARMCIA
Um remdio que chegou este ano s farmcias americanas  o novo passo da cincia na busca do amor eterno. E no  s. Especialistas acreditam que j  possvel acabar com a traio. Para tudo isso, basta manipular os hormnios e genes certos.
TEXTO / Carol Castro e Felipe van Deursen
DESIGN / Ricardo Davino
ILUSTRAO / Yan Sorgi

     Amor no  uma vontade incontrolvel de ficar com seu amante o tempo todo. O nome disso  serotonina. Amor no relaxa o corpo, cria laos e deixa os apaixonados felizes. O nome disso  ocitocina.  dopamina. Biologicamente, paixo  s um jato de hormnios e neurotransmissores disparado pelo crebro. E que viciam quase como droga  as reas de prazer e recompensa ativadas so as mesmas. Mas uma hora cansa. Quando a festa hormonal no crebro acaba, o amor chega ao fim.
     Com isso em mente, os neurocientistas Julian Savulescu e Anders Sandberg, da Universidade de Oxford, Reino Unido, iniciaram uma busca pela cincia do amor eterno. Primeiro, eles analisaram dados de divrcio nos Estados Unidos e viram que, todo ano, quase um milho de casais se divorciam no pas  em mdia, 16 anos depois do casamento. Esse tempo de durao no   toa, segundo os cientistas. H milhares de anos, o crebro criou artimanhas qumicas para atrair casais, a fim de estimular a reproduo da espcie. S que, milhares de anos atrs, os humanos viviam cerca de 25, 30 anos. Ou seja, eles passavam, no mximo, por volta de 15 primaveras juntos com algum. Justamente como a mdia de durao dos casamentos hoje nos EUA (e tambm no Brasil, segundo o IBGE). Ou seja, do ponto de vista evolutivo, no  que os relacionamentos estejam, necessariamente, durando menos.  que estamos vivendo mais. Nosso crebro evoluiu h milhares de anos para lidar com relaes e problemas que faziam sentido naquele ambiente, em pequenas comunidades de caa e coleta.  um sistema primitivo, com limitaes, diz Brian Earp, psiclogo e professor da Universidade de Oxford, que integra a equipe de Savulescu e Sandberg. Segundo eles, at hoje nosso corpo segue essa regra. A culpa dos casamentos durarem pouco, portanto,  dos hormnios e neurotransmissores. Ou melhor, da falta deles. Afinal, so eles que acionam o sistema de recompensa do crebro e desencadeiam a sensao de prazer e felicidade do amor correspondido.
     Mas se depender desse grupo de cientistas, isso vai mudar. A ideia deles  incentivar a produo de remdios que supram a escassez dessas substncias. Para isso, estudam o papel delas no amor, a fim de descobrir como sua falta atrapalha os relacionamentos e como seria benfico aumentar de novo suas doses no corpo. Porm, enquanto eles cuidam da parte terica, outro grupo j ps as ideias em prtica. O remdio do amor vem em um recipiente de 7,5 ml, com conta-gotas, ou sob a forma de spray nasal. A ocitocina est no ar.

HORMNIO DA PAZ
     O sistema lmbico do crebro, responsvel pelas sensaes e sentimentos, produz ocitocina naturalmente, seja em um abrao, seja na hora do orgasmo, amamentao ou durante o parto, estimulando as contraes uterinas. Ela aparece ainda como a substncia qumica responsvel pelo sentimento de conexo entre as pessoas. Um estudo da Universidade de Bar-Ilan, de Israel, acompanhou 60 casais e mediu o nvel do hormnio no sangue deles. Meses antes de terminar o relacionamento, eles mostravam uma queda na quantidade de ocitocina.
     Em 2010, o psiquiatra americano Bryan Post decidiu sintetizar e engarrafar o hormnio, batizando-o de Oxytocin Factor. Ao longo da minha profisso, vi pessoas tomando remdios para depresso que nem sempre funcionavam. Quando comecei as pesquisas com ocitocina, sabia que poderia ser valioso, diz. E os riscos? No  txica, no faz mal e no vira um vcio, j que no desperta uma vontade continua de uso, diz a neuroendocrinologista e especialista em monogamia Sue Carter. Mas eu no aconselharia o uso. Faltam estudos. A ABC Nutriceutical, empresa de Bryan Post que fabrica o produto, cita alguns efeitos colaterais, como alergia, dor de cabea, convulso e nuseas. Mas nem 1% dos usurios relatou problemas. Ele j pode ser comprado em farmcias nos EUA e custa cerca de R$ 120.
     O remdio no restaura a paixo. Nem chega perto disso. Mas proporciona uma forte sesso de relaxamento (ns experimentamos. Leia mais abaixo). E isso pode ajudar nos momentos mais tensos de uma relao. Com duas borrifadas no nariz ou seis gotas debaixo da lngua, o hormnio corre pelo sistema sanguneo e aos poucos entra no sistema nervoso central, reduzindo o nvel de cortisol (hormnio do estresse) no sangue. A  s calmaria.

EM BUSCA DO AMOR ETERNO
     Se Post se contenta com esses resultados, a turma de Oxford quer buscar tratamentos capazes de prolongar a festa do amor eterno. O plano  intensificar os efeitos dessas substncias no corpo. Alm da ocitocina, uma das peas-chave  a dopamina, neurotransmissor que d a sensao de prazer e bem-estar. Ainda precisamos descobrir como fazer uma droga que acerte em cheio o alvo, que ajude mesmo a contribuir na sensao de vnculo, diz Earp. Um remdio assim precisa combinar o efeito calmante da ocitocina sinttica com a euforia da dopamina. A teramos algo que realmente emula a sensao de estar apaixonado.
     At a infidelidade est sob a mira da cincia. Segundo pesquisas, um gene ligado  recepo de neurotransmissores de vasopressina pode dizer se algum  fiel ou no. Voc no resiste  tentao, pula a cerca, mas quer parar? Por que no curar esse problema? Em ratos, pelo menos, deu certo. Em um estudo da Universidade Emory, EUA, os cientistas separaram animais da mesma espcie: promscuos de um lado, monogmicos de outro. Depois, colocaram os genes fiis no DNA dos ratos mais malandros. Funcionou. Eles passaram mais tempo com a parceira do que na gaiola de estranhas. Fique esperto, Ricardo. A equipe de Brian Earp no descarta essa soluo para humanos.
     Mas ainda no h data para esses tratamentos virarem realidade. Mesmo na teoria cientfica, o assunto ainda  escasso. A pesquisa dos americanos  uma das primeiras a pensar em drogas voltadas para prolongar os relacionamentos. A pergunta : o que vai ser possvel nos prximos dez anos? No sei prever, mas acho que j vamos ter avanado bastante nesse assunto, diz Earp.
     Talvez a pergunta seja outra: at onde o amor eterno  bom? Como ficariam os sambas, os romances, os filmes? Se no houvesse traio, no existiria Odair Jos nem Beatles. O jovem Werther, de Goethe, no teria tantos sofrimentos. Toda a arte seria outra. E o aprendizado de cada p na bunda? Sem contar os possveis riscos. Desde a criao das drogas da felicidade, ficou mais fcil se encaixar em uma doena mental: ansiedade, bipolaridade, dficit de ateno, hiperatividade. Quase 10% dos americanos com mais de seis anos tomam algum tipo de antidepressivo. As drogas do amor talvez entrem nesta mesma onda. At a ideia de distribuio proposta pela equipe da Universidade de Oxford  parecida: no futuro, com a evoluo da droga, ela no deve ser distribuda sem critrio, mas apenas com receitas de psiquiatra. A dor de cotovelo, finalmente, teria outro tratamento. Alm daquele outro, infalvel, mesmo que tantas vezes demorado: o tempo. 

DIAS DE OCITOCINA
EXPERIMENTAMOS A DROGA DO AMOR. VEJA COMO FOI.
Ela tem sabor de menta. Para fazer efeito, voc precisa pingar seis gotas embaixo da lngua ou apertar o spray uma vez em cada narina. Aps dez minutos, a droga comea a surtir efeito, que dura at quatro horas. Em pouco tempo, o brao amolece e o corao desacelera. Piadas bobas ficam engraadas. A vontade de defender qualquer assunto beira o zero. Estender uma briga fica muito difcil. De fato, uma discusso acalorada de namorados foi dissolvida no ar quando o spray fez efeito. Por um tempo, tudo  lindo. Sorrisos e abraos ficam fceis.  bom. Mas basear a tranquilidade do dia a dia ou, pior, sustentar um relacionamento nessas gotas soa um tanto assustador.


3. ATUALIDADES  FRONTEIRAS EXTREMAS
TEXTO / Ana Prado 
DESIGN / Ricardo Davino
As divisas de alguns pases so to impressionantes que podem ser vistas at do espao. De um lado h verde e gua; do outro, tudo  seco. Se aqui h ordem, l reina o caos. Conhea nove das fronteiras mais contrastantes do mundo.

ESTADOS UNIDOS / MXICO
A CERCA DE METAL - Deste lado, Tijuana  catica, cinzenta, densamente povoada, com uma proliferao de casas feitas de pneus e materiais reciclados. Sua expanso s  impedida por uma cerca. Isso porque do outro lado est San Diego, Califrnia. O cenrio  opressor. O cercado  feito de chapas de metal usadas em pistas de pouso nas guerras do Vietn e do Golfo. A imagem no deixa dvida. Enquanto o centro de Tijuana avana rumo  fronteira e ao dinheiro americano, o de San Diego se afasta da pobreza mexicana. Atravessar a fronteira pode levar at cinco horas. A segurana para entrar no lado americano  muito mais rgida, especialmente por causa do trfico de drogas, diz o americano Adam Johnson, que j fez a travessia mais de dez vezes  em alguns casos, s para comer em um restaurante mexicano. Segundo ele, a volta  tumultuada tambm porque policiais de Tijuana costumam exigir propina para seguir viagem. So geralmente US$ 20, mas eles no deixam voc sequer entrar na fila para cruzar a fronteira caso no pague. E, se o trajeto Mxico-EUA  bagunado, o oposto  tranquilo: leva s dez minutos em mdia.

COREIA DO SUL / COREIA DO NORTE
PARALELO 38 N - Ao final da Guerra da Coreia, em 1953, os dois lados determinaram um cessar-fogo e estabeleceram uma zona de segurana na fronteira, no paralelo 38 graus ao norte do Equador. Sob a superviso da ONU, a rea  conhecida como zona desmilitarizada e acabou virando, sem querer, um dos maiores pontos tursticos da Coreia do Sul. Ningum pode passar para o norte. E nem iria querer: placas avisam sobre as inmeras minas terrestres que cercam as estradas. O fotgrafo brasileiro Ricardo Azoury esteve na fronteira. No  um turismo fcil. Voc precisa se justificar o tempo todo. No meu caso, tive uma escolta, diz. Estas casas so postos de fronteira e tm uma porta em cada lado para que soldados entrem sem invadir o pas vizinho.

HULANDA / BLGICA
FRONTEIRAS BAIXAS  Baarle tem limites complicados. Parte dela  da Holanda e se chama Baarle-Nassau, enquanto a outra pertence  Blgica e  Baarle-Hertog. Cada uma tem sua prefeitura, policiais etc. Mas a divisa no  marcada por uma linha contnua:  toda feita de estilhaos. H vrios pedaos de Baarle-Nassau dentro de Baarle-Hertog e vice-versa. Os nicos indicadores do pas em que voc se encontra so marcaes na rua e minsculas bandeiras nacionais na porta das casas. A origem est no sculo 12, quando dois senhores feudais no chegaram a um consenso para dividir a rea de maneira simples. Hoje, as fronteiras no tm importncia poltica, mas so defendidas pelos habitantes: eles dizem que, se no fosse isso, a(s) cidade(s) seria(m) um lugar qualquer.

HAITI / REPBLICA DOMINICANA
ILHA RASGADA - A fronteira das duas naes que dividem a ilha de Hispaniola, no Caribe, tem contrastes extremos. Em muitos lugares nessa rea, podemos olhar para o leste (o lado dominicano) e ver florestas de pinheiros e, ao virar para o outro lado (o haitiano), vemos apenas campos quase desprovidos de rvores, descreve o gegrafo Jared Diamond no livro Colapso. Originalmente, a ilha como um todo era conhecida pela exuberncia de suas florestas. Hoje, 28% da cobertura vegetal est preservada na Repblica Dominicana, contra apenas 1% no Haiti  e as poucas reservas haitianas esto ameaadas por camponeses que derrubam rvores para fazer carvo vegetal. A razo  histrica. Apesar de ser hoje um dos pases mais pobres do mundo, o Haiti desenvolveu uma pujante economia agrcola no sculo 18, chegando a ser a colnia mais rica da Frana. Nessa poca, o imprio francs decidiu investir em plantaes intensivas baseadas em trabalho escravo, enquanto a Espanha no desenvolveu o seu lado da ilha (a Repblica Dominicana), explica Diamond. Alm disso, todos os navios que traziam escravos voltavam para a Europa com cargas de madeira. Isso contribuiu para o desmatamento mais rpido e a perda de fertilidade do solo  o que d para ver do cu.

BRASIL / FRANA
PARIS, AMAP - Sim, o Brasil faz fronteira com a Frana  e  a maior que eles tm, com quase 700 quilmetros, na Guiana Francesa, um departamento ultramarino da Frana que faz divisa com o Amap. L, a moeda corrente  o euro, o que h anos atrai amapaenses em busca de trabalho. Tanto que h muitos brasileiros francfonos na fronteira. Mesmo assim, a nica ponte que liga o Brasil  Guiana Francesa, sobre o rio Oiapoque, ainda no foi inaugurada. Ela est pronta desde 2011.

ISRAEL / EGITO / PALESTINA
TRPLICE REALIDADE - Desde a criao de Israel, em 1948, a terra do pas ficou de cara nova, com reas irrigadas e cultivveis, afastando-se da secura do pas vizinho, o Egito. Hoje, Israel tem reas maiores de agricultura comercial irrigada. Enquanto isso, o solo egpcio tem uma cor bem mais clara por causa da destruio de crostas biolgicas que o recobrem  o que pode ter sido provocado pelo pisoteamento da terra por homens e animais, com o pastoreio excessivo. J a Faixa de Gaza, territrio palestino situado em uma estreita faixa costeira ao longo do mar Mediterrneo, se destaca por outra caracterstica: a enorme concentrao de pessoas, a maioria refugiados, em um pequeno espao. So 4 mil habitantes por quilmetro quadrado, dez vezes mais que Israel  e a densidade demogrfica do Egito  menor ainda: apenas 74 pessoas por quilmetro quadrado. Com todo esse povo, apenas 13% da Faixa de Gaza tem terras cultivveis. At do ponto de vista da Nasa, os contrastes na regio so gritantes.

NDIA / BANGLADESH
MISRIA, MISRIA - So mais de 200 enclaves (um territrio dentro dos limites de outro) e exclaves (territrio pertencente a outro, mas que no est fisicamente junto). Para se ter uma ideia, h um pedao da ndia dentro de um pedao de Bangladesh que, por sua vez, est dentro da ndia. E por a vai. Mas no basta a complexidade das fronteiras, a disparidade tambm choca: o lado bengals  devastado, enquanto o indiano tem florestas subtropicais. De uma forma geral, a fronteira de Bangladesh  um reflexo do pas como um todo, afirma Moises Lopes de Souza, especialista em sia do Ncleo de Pesquisas em Relaes Internacionais da USP. Ele sofre com a superpopulao, e quase metade de seus 150 milhes de habitantes sobrevive em condies miserveis. O pas  majoritariamente agrrio. Quase toda a terra arvel na regio tem sido cultivada ou urbanizada, resultando na devastao de grande parte das florestas originais.

LESOTO / FRICA DO SUL
DESERTO E HIV - Praticamente todo o contorno do Lesoto, um reino do tamanho de Alagoas encravado no meio da frica do Sul, pode ser visto do espao. Na fronteira oeste, no lado sul-africano, a terra  densamente cultivada e irrigada, enquanto em Lesoto ela est devastada. Alm da pobreza extrema e da Aids (uma em cada quatro pessoas tem o vrus HIV), a desertificao e a eroso do solo so um problema grave no pas. A culpa, mais uma vez,  da explorao da madeira, usada como combustvel, e do pastoreio desenfreado.

NDIA / PAQUISTO
A DANA DA DIVISA - Wagah  uma cidade dividida ao meio: metade indiana, metade paquistanesa.  ali que, todas as tardes, desde 1959, h uma cerimnia militar de fechamento dos portes da fronteira. Idealizada e coreografada pelas patrulhas dos dois lados em respeito  soberania mtua, ela atrai turistas de todo o mundo. A coreografia, tentativa de demonstrao de bravura e intimidao, muitas vezes foi um indicativo das relaes entre os pases durante as guerras pelo controle da regio da Caxemira, diz o pesquisador Moises de Souza. Em 2010, ambas as partes assinaram um acordo para amenizar o tom belicoso da cerimnia e evitar provocaes por parte do pblico. 


4. CINCIA  EINSTEIN NO CEAR  AS AVENTURAS E DESVENTURAS DE UMA TEORIA ARRETADA NOS CONFINS DO SERTO
Ou como a Teoria da Relatividade, a maior criao de Albert Einstein, foi comprovada por um eclipse no cu do Nordeste.
TEXTO / Luiz Romero
DESIGN / Rafael Quick
ILUSTRAO / Horcio Gama

Correndo pelo espao, a Lua surgiria entre o Sol e a Terra. Projetaria uma sombra imensa sobre o planeta. E seguiria seu caminho. Parecia apenas outro eclipse. Exceto para quatro ingleses: fazia horas que eles olhavam para o cu, apreensivos. Divididos em dois grupos, o primeiro numa ilha da costa da frica e o segundo numa cidade do nordeste do Brasil, torciam para que o brilho da constelao de Touro, ajudado pela escurido, superasse as nuvens e chegasse s cmeras. O experimento no poderia dar errado. Dependia dele a comprovao de um dos maiores feitos da mente humana. Uma teoria que unificava tempo e espao, energia e matria, velocidade e gravidade, que reformulava um arcabouo de leis incompletas para desenhar um novo Universo, mais elegante e racional. Depois de 29 de maio de 1919, os africanos no desconfiavam, os brasileiros tambm no, mas o mundo nunca mais giraria como antes.
     
     Essa histria comea muito antes de 1919, quando as estrelas e as pessoas ainda obedeciam quelas regras que aprendemos na escola. Em 1666 e pelos dois sculos seguintes, o espao era absoluto e infinito em todas as direes, o tempo corria igual em todos os lugares e, como outros milhes de planetas e satlites do Universo, a Terra segurava a Lua prxima pela magia da fora da gravidade. Vivamos num mundo de regras claras, formuladas pela genialidade do ingls Isaac Newton e escritas como que em pedra no Principia Mathematica, um dos livros mais fundamentais da cincia. No existe nada de novo para ser descoberto na fsica atualmente, disse o fsico ingls William Thomson, resta apenas a medio cada vez mais precisa. Estava tudo calmo e os cientistas estavam confortveis nas suas poltronas.
     Avancemos at a virada do sculo 19 para o 20, quando movimentos na msica, na pintura e na literatura criam um clima de renovao na Europa. Mesmo observando uma revoluo por metro quadrado, ainda faltava a cincia: um museu velho, com sculos de idade. O primeiro abalo nessa estrutura nasceu de um conflito entre as regras de Newton e as equaes do escocs James Maxwell. A briga girava em torno da luz. Segundo Newton, sua velocidade pode ser somada  rapidez daquilo que a emite. Por exemplo, imagine um carro que viaja a 300 milhes de km/h. Ele est com os faris acesos  por isso, a luz viaja com a prpria velocidade, cerca de 1 bilho de km/h, somada  velocidade do carro. Ou seja, a 1,3 bilho de km/h. Para Maxwell, isso  besteira, pois ele descobriu que a velocidade da luz  constante e, por isso, no pode ser somada a nada. Ela continua com cerca de 1 bilho de km/h independente do emissor. Eram duas teorias que no funcionavam bem juntas. E os fsicos no sabiam em quem acreditar.
     Se a fsica construda por Newton era um museu antigo e imponente, as descobertas de Maxwell representavam uma construo moderna, uma grande pirmide de ferro e vidro. Os fsicos no sabiam se desviavam o olhar da pirmide ou se aceitavam as incongruncias geradas pela unio dos dois prdios, tentando encontrar alguma beleza naquilo. No comeo do sculo 20, a cincia precisava de algum corajoso o suficiente para esquecer o museu e olhar apenas para o monumento. Algum que ignorasse as regras de Newton e focasse apenas na velocidade da luz. E essa pessoa era um funcionrio da cidade de Berna, a capital da Sua. Um alemo formado pela Universidade de Zurique. Um jovem de 26 anos que costumava ficar escondido atrs de pilhas de papel numa mesa do Escritrio de Patentes. Ele, ningum menos que Albert Einstein, no apenas ignorou o museu, como demoliu a velharia toda.
     A concluso de Einstein pode ser resumida numa linha de raciocnio simples. A velocidade  medida pela relao entre tempo e espao. Segundo Newton, esse primeiro item  varivel, enquanto os dois ltimos so fixos. Se, seguindo Maxwell, essas caractersticas so invertidas, se a velocidade passa a ser fixa (como no caso da luz), logo, o tempo e o espao precisam variar. O que isso significa? Se voc esta viajando muito, muito rpido, o tempo vai passar diferente (um pouco mais devagar) e o espao tambm vai agir de forma estranha (as coisas vo encolher). Lembra do tempo constante e do espao absoluto de Newton? Segundo Einstein, eles no existem. O que existe  um mundo em que uma coisa  constante  a velocidade da luz  e todo o resto  varivel. Quando precisou escolher entre Newton e Maxwell, Einstein preferiu acreditar no segundo  e tornar maleveis as regras do primeiro.
     Mas o que tudo isso tem a ver com Sobral? Por enquanto, com as ideias que seriam conhecidas como Teoria da Relatividade Especial, pouco. Em 1905, quando publicou o artigo que explica a constncia da luz e sua consequncia, a varincia do tempo e do espao, Einstein havia demolido apenas alguns departamentos do museu. Agora, o problema eram os restos de construo que contrastavam com a pirmide de vidro e metal. Entre os escombros, havia um salo que guardava a criao mais preciosa de Newton, uma esttua to grande quanto o Universo  a fora da gravidade.

EINSTEIN EXPLICA TUDO
     A Teoria da Relatividade Especial define apenas parte do Universo. A metade em que as coisas esto andando numa velocidade fixa. Mas ainda existe um segundo pedao, onde os objetos ganham e perdem velocidade. Em 1905, eles continuavam respeitando a lio mais famosa de Newton, a Lei da Gravitao Universal. Einstein havia feito metade do trabalho e a demolio ainda no estava completa. O pior: muitos fsicos da poca, que ainda no davam ateno para a primeira parte da Teoria da Relatividade, gostavam das leis antigas. Mas, lembremos: estamos no comeo do sculo 20, as ideias de Newton no esto mais escritas em pedra.
     A destruio termina quando Einstein entende que as duas metades podem ser explicadas pela mesma regra. Ele para de ver a gravidade como uma fora, pois aquela atrao instantnea entre corpos precisaria ser mais rpida do que a velocidade da luz e, lembrando Maxwell, sabia que isso no era possvel. Como explicar, ento, a atrao entre os corpos? O alemo descobriu que a gravidade, na verdade, era resultado da interao entre a massa dos corpos e uma espcie de malha criada pelo tempo e pelo espao, que ele chamou de tecido espao-tempo. Segundo Einstein, estruturas muito grandes afundam o espao e criam valas que seguram os objetos prximos. Por isso, o fato de a Terra girar ao redor do Sol no  resultado de uma atrao quase mgica, mas da natureza da geometria do Universo, que encurva na presena da estrela.
     A Teoria da Relatividade Geral trazia uma forma de testar sua efetividade. Era um experimento simples. Como a malha do espao-tempo era curva, um raio de luz que passasse perto de uma grande estrela, necessariamente, seria entortado  coisa que Newton achava impossvel. Para verificar esse fenmeno, era preciso fotografar o cu durante um eclipse, quando  possvel observar as estrelas prximas do Sol. Depois, comparar essa fotografia com outra, daquele mesmo grupo de estrelas, numa noite normal, quando o Sol j havia girado para outra posio. A previso: como o raio de luz era entortado pela massa do Sol, sem ele, chegaria na Terra numa posio levemente diferente. Por exemplo, uma estrela que, segundo as leis de Newton, deveria estar escondida atrs do Sol, apareceria magicamente ao lado dele. Essa sugesto renderia algumas aventuras e muitos fracassos. E acabaria aqui, no Brasil, numa cidadezinha do Nordeste humildemente responsvel pela prova da teoria mais revolucionria da cincia.

A GRANDE PROVA
     A ideia de testar a Teoria da Relatividade Geral empolgou um astrnomo do observatrio da Universidade de Berlim, que resolveu aceitar o desafio. Erwin Freundlich partiu para a pennsula da Crimeia, na Rssia, onde observaria um eclipse de apenas dois minutos, o suficiente para comprovar a teoria e mudar a histria da fsica. No fosse a guerra. Era 1914, a Europa observava o comeo da Primeira Guerra Mundial e, para azar de Freundlich, 20 dias antes do eclipse, a Alemanha declarou guerra  Rssia. Ele foi preso e, desconfiados dos equipamentos que carregava, os russos no deixaram que fizesse o experimento.
     A outra tentativa, ironicamente, veio de outro pas que vivia em guerra com os alemes, a Inglaterra. Arthur Eddington, diretor do Observatrio de Cambridge e grande entusiasta da Teoria da Relatividade, conseguiu organizar uma expedio para observar um eclipse que aconteceria em maio de 1919.
     Mas ele seria visvel apenas num pequeno pedao da Terra: entre o nordeste do Brasil, um pedao do Atlntico e uma parte da frica. Pensando nisso, Eddington decidiu dividir a expedio em dois grupos. Ele prprio e seu assistente, Edwin Cottingham, iriam para a ilha do Prncipe, na costa da frica. Enquanto para o Brasil viriam Andrew Crommelin e Charles Davidson, que usariam Sobral, no interior do Cear, como base das observaes.
     Em Prncipe, choveu durante toda a manh. E somente perto da hora do eclipse as nuvens sumiram e o tempo ajudou. Apesar disso, as fotos das estrelas ainda ficaram ruins: em alguns momentos, elas apareciam de forma mais clara, em outros, sumiam no cu encoberto. Eddington registraria em seu dirio: No vi o eclipse, to ocupado estava trocando as chapas, exceto por uma olhadela para me certificar de que ele comeara e outra no meio para ver quanto havia de nuvens. Ao final do fenmeno, o astrnomo mandou um telegrama ao grupo no Brasil: Apesar das nuvens, esperanoso.
     Enquanto isso, a equipe de Sobral, que havia montado os equipamentos na pista de corrida de cavalos da cidade, no poderia estar mais tensa. O dia havia amanhecido nublado e eles estavam ansiosos para descobrir o estado do tempo na hora do eclipse. Quando chegou o momento, o cu ficou menos encoberto e foi possvel ver a Lua passando na frente do Sol por um buraco entre as nuvens. A mensagem enviada por eles aos astrnomos na frica era mais otimista: Esplndido eclipse. Os ingleses ainda ficaram no Brasil por dois meses, pois precisavam tirar novas fotografias daquele mesmo grupo de estrelas, sem a influncia do Sol, explica Emerson Almeida, diretor do Museu do Eclipse, localizado em Sobral e dedicado a lembrar da passagem da delegao pela cidade.
     A comprovao viria alguns meses depois. As imagens de Sobral e Prncipe seriam comparadas. Era a diferena entre as fotografias que confirmaria  ou destruiria  a Teoria da Relatividade Geral. Eram trs possibilidades: que no houvesse desvio, que fosse de 0,85 segundo de arco ( e Newton estaria certo) ou que fosse de 1,7 segundo de arco (consagrando o acerto de Einstein). Neste caso, o alemo terminaria a demolio. E teria construdo no lugar um novo museu, moderno e capaz de abarcar o Universo inteiro.
     Essa histria termina de forma dramtica. Uma reunio dos cientistas e astrnomos mais respeitados da poca, em Londres, apresentaria os resultados das expedies. Como um fantasma, um quadro de Isaac Newton assombrava o lugar. Apesar da presena do criador das ideias que estavam sendo demolidas, foi anunciado que os resultados de Prncipe ficaram em 1,6 segundo de arco, enquanto as chapas de Sobral mostravam 1,9 segundo de arco. Estava feito: consideradas as margens de erro, que reduziam e aumentavam os valores at a previso da Teoria da Relatividade Geral, Einstein estava certo. E o eclipse era a comprovao. Matria e energia tornavam curva a malha do tempo e do espao, e ela entortava o brilho das estrelas. Estava tudo ligado. O mundo nunca mais giraria como antes. 

O BURRINHO MAIS VELOZ DO SERTO
E como ele consegue viajar pelo Cear e pelo tempo com a Relatividade Especial.
1- DUELO DE ARMAS - Para entender a Teoria da Relatividade Especial, imagine uma competio de tiros. Mas ela acontece em Sobral, onde as regras do nosso Universo no funcionam. Aqui, as balas correm como a luz. Esperto, um dos sobralenses monta num burrinho para que a velocidade do animal seja somada  velocidade da luz. A bala dele chegaria  frente.
2- TIROS IGUAIS  Mas nenhuma velocidade pode ser somada  da bala, nem a rapidez do burrinho, porque ela corre na velocidade da luz. No fim, as duas balas chegam juntas.
3- RPIDO COMO A LUZ - Agora, outra implicao da teoria. Imagine que o burrinho, como todos os bichos de Sobral, consegue chegar prximo  velocidade da luz. E, para se mostrar, o sobralense d uma volta na cidade correndo muito, muito rpido, quase como um feixe de luz.
4- SOBRAL DO FUTURO  O que acontece? Quando o burrinho est a cerca de 1 bilho de km/h,  como se 100 anos passassem em apenas 30 segundos. Ele viaja pelo tempo. Para o futuro. E ao parar, ele encontra a Sobral do sculo 22. Esse  o grande efeito prtico da maleabilidade do tempo, a maior sacada da Relatividade Especial.

OS INTRPIDOS ENTORDADORES DO ESPAO
Ou como a Relatividade Geral e todo o Universo cabem numa rede de pesca
1- NA REDE DO ESPAO  Todos os dias, os pescadores da costa do Cear exemplificam a Teoria da relatividade Geral. Normalmente, os peixes jogados por eles andam em linha reta por uma rede, que lembra muito a trama do espao-tempo.
2- GRANDE COMO O SOL  Mas, eventualmente, eles jogam um peixe gigante no meio dessa rede. Por ter muita massa, ele entorta a malha.
3- A FSICA DE SOBRAL  Por ter mais massa do que os peixinhos, ele atrai tudo o que passa ao redor.  a mesma coisa que acontece quando o Sol entorta o espao e atrai os planetas, s que na escala sobralense da fsica.

PARA SABER MAIS
Eisntein: Sua Vida, Seu Universo  Walter Isaacson, Companhia das Letras, 2007.
ABC da relatividade  Bertrand Russel, Zahar, 2005.


5. CINCIA  D PARA FINGIR SER LOUCO?
Seja para fugir da priso ou para conseguir uma receita mdica controlada, tem muita gente por a tentando se passar por maluco. Mal sabem eles que teriam de ter os talentos dramticos de um Al Pacino com uma direo de Hitchcock. Duvida? Ns explicamos aqui.
TEXTO / Maurcio Horta 
DESIGN / Rafael Quick 
FOTO / Julia Rodrigues

     Por dcada o mafioso Vincent Gigante andou pelas ruas de Manhattan no em ternos italianos, mas de pijama ou roupo de banho. Era conhecido em Greenwich Village no por liderar os Genovese, uma das cinco famlias mafiosas de Nova York, mas por babar e murmurar de um lado para o outro. Seu disfarce comeou em 1969, aos 40 anos, para escapar de uma acusao de propina. Deu certo, e assim continuou. Bastava que o FBI esquentasse a perseguio a mafiosos para que Gigante desse entrada numa clnica psiquitrica. Certo dia, agentes o viram pelado na chuva, segurando um guarda-chuva. Noutro, o viram cair na calada e comear a rezar. Segundo seu psiquiatra, Stanley Portnow, 34 outros mdicos diagnosticaram esquizofrenia. Nos bastidores, o falso louco crescia na hierarquia dos Genovese. Em 1981 se tornou chefo. Na metade da dcada, subiu  chefia da Comisso, o comit interfamlias da mfia. At que, em 1990, foi preso, acusado de extorso e homicdio. Novamente, a defesa alegou que Gigante no tinha condies mentais para ser julgado. Em percias, conseguiu engambelar um renomado psiquiatra de Harvard, cinco ex-presidentes da Academia Americana de Psiquiatria e Direito e o homem que inventou um teste padro para reconhecer simulaes de transtornos mentais. A acusao provavelmente no iria para frente se alguns mafiosos no tivessem comeado a colaborar com a polcia. De fato, seis gngsters descreveram o seu papel na famlia Genovese. Gigante acabou condenado por extorso, mas no por homicdio, e foi sentenciado a 12 anos. Somente em 2003 a mentira foi revelada. Acusado de obstruir a justia, Gigante calmamente admitiu tudo  em troca de outra sentena menor. 
     Sim, fazer de conta que vai mal da cabea pode trazer vantagens. Pode render aposentadoria por invalidez ou auxlio-doena. Pode dar acesso a remdios controlados que aludam a ser mais produtivo nos estudos e no trabalho. Ou pode evitar o julgamento por um crime, como no caso de Gigante. O princpio no caso penal  o seguinte: quando uma doena mental deixa a pessoa incapaz de controlar sua ao, ela se torna aquilo que o juridiqus chama de inimputvel. Para a lei, no importa que doena a pessoa tenha, mas o impacto dela no dia a dia, diz Daniel Barros, professor de psiquiatria forense do Hospital das Clnicas da USP. Mesmo que um sujeito tenha esquizofrenia grave, se ele roubar dinheiro para comprar uma blusa, no ter feito isso por causa do transtorno, mas porque queria comprar a blusa. Ele s deixaria de responder pelo crime se a doena torn-lo incapaz de entender o que est fazendo ou de se controlar, diz Barros. Assim, ele deixa de ter culpa pelo crime. A alegao de inimputabilidade  rara: segundo um estudo da Universidade da Pensilvnia, apenas 0,9% dos processos criminais parte para essa estratgia. Nesses casos, o acusado  internado em hospital psiquitrico..
     O mafioso Gigante  uma prova de que no  impossvel enganar um psiquiatra. Afinal, diferentemente de um cncer ou de um osso quebrado, um transtorno mental  diagnosticado a partir do comportamento e dos relatos do paciente, e no por um exame fsico. No existe raio-X de esquizofrenia. Mas, na prtica, para enganar um psiquiatra  preciso mais do que bons talentos dramticos.  necessria maestria como diretor, roteirista e ator.
     Para desmascarar mentirosos, psiquiatras tm uma ferramenta principal: a boa e velha conversa. Eles partem para perguntas abertas. Assim, o paciente precisa relatar os sintomas com suas prprias palavras e experincias  de nada adianta ler os sintomas no Google. Na hora de detalhar a entrevista, o psiquiatra pode misturar perguntas relacionadas a transtornos opostos ou sintomas completamente improvveis (por exemplo, se v palavras escritas surgirem quando pessoas falam). Com uma entrevista longa,  apenas uma questo de tempo para que ele se contradiga ou mostre um comportamento incoerente com as descries. Voc pode estudar as cores e tcnicas de Van Gogh, diz Barros. Mas quando voc faz um quadro, no sai um Van Gogh.
     Agora, o roteiro. Digamos que a pessoa tenha forjado um quadro de esquizofrenia a partir do que ele viu em filmes. O problema  que esse transtorno  bem diferente do que mostram os filmes. Tem sintomas positivos  alteraes das funes normais, como alucinaes e delrios  e sintomas negativos  diminuio das funes normais, como falta de motivao, de emoes e isolamento social. Falsrios tendem a ignorar os sintomas negativos, que so menos conhecidos. E, segundo o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, da Unifesp, o que confirma mesmo o diagnstico de esquizofrenia no so vozes imaginrias ou pensamentos estranhos, mas a forma como a pessoa se vincula afetivamente com os outros. Para conseguir imitar isso, o sujeito teria de ser digno de um Oscar.
     Na hora de simular sintomas como alucinaes, surgem os problemas de atuao. Tal como o mau ator num dramalho barato, ele acha que quanto mais bizarro o comportamento, mais convincente ser. Esfora-se para parecer louco e tomar o controle da entrevista, enquanto pacientes genunos geralmente relutam em discutir seus sintomas, afirma Phillip Resnik, professor de psiquiatria da Universidade de Cleveland. Digamos que um falsrio relate ter ouvido vozes. Como eram essas vozes? Em casos psicticos legtimos, elas so bem claras  d at para saber se so masculinas ou femininas. Ou seja, no existe essa de no sei quando o psiquiatra fizer perguntas. De onde vieram? Em 88% dos casos, parecem vir de fora da cabea, como de objetos, da parede ou do ar. O que elas dizem? Embora seja comum que a voz d instrues, raramente elas se limitam a comandos  e normalmente o paciente evita obedec-las, principalmente se isso trouxer perigo. Ento, se vozes de dentro da cabea tiverem mandado um acusado ir at um banco e roubar dinheiro, dificilmente um psiquiatra acreditar nelas.
     Junto s alucinaes auditivas podem surgir as visuais. Mas nada de flashes, sombras, objetos voadores ou distores de cores e tamanhos, comuns em alucinaes causadas por LSD. Elas so em geral imagens de pessoas em escala normal e em cores. E a est mais um erro comum de falsrios. Um ru acusado de roubo de banco disse calmamente ter visto um gigante de vermelho de dez metros derrubando uma parede durante a entrevista. Quando se perguntava a ele perguntas detalhadas, frequentemente dizia Eu no sei. No final das contas, admitiu que mentia, escreve Resnik.
     Para fechar o prmio de mau ator para o falsrio, a psicose no se limita ao que a pessoa pensa. Ela influi em como a pessoa pensa. Uma pessoa em estado psictico muda abruptamente de assunto, inventa termos, faz uma salada de palavras. Ningum vai enganar um psiquiatra dizendo de forma clara que est confuso. E para saber as caractersticas de confuso mental na esquizofrenia e reproduzi-las  necessrio mais um Oscar. Ou ento passar trs dcadas fingindo loucura de manh  noite. No  qualquer um que consegue ser Vincent Gigante. 

ESQUIZOFRENIA
POR QUE TENTAM FINGIR: Inimputabilidade criminal.
SINTOMAS MAIS COMUNS: Alucinaes, delrios, apatia, achatamento de emoes, isolamento social.
TROPEOS DE QUEM FINGE: Achar que quanto mais bizarro, mais convincente ser, e acabar inventando alucinaes e delrios muito diferentes dos legtimos. Ignorar sintomas menos cinematogrficos, como a apatia e o achatamento de emoes.

DEPRESSO
POR QUE TENTAM FINGIR: Aposentadoria por invalidez, auxlio-doena.
SINTOMAS MAIS COMUNS: Perda de prazer nas atividades, sensao de inutilidade, insnia, ideias de morte ou suicdio.
TROPEOS DE QUEM FINGE: Dizer que est triste, mas no aparentar a tristeza, ou exagerar num grau que no teria permitido sequer ir at a percia. Dizer que chora, mas no saber responder direito em quais situaes.

ETRESSE PS TRAUMTICO
POR QUE TENTAM FINGIR: Aposentadoria por invalidez, auxlio-doena, indenizaes.
SINTOMAS MAIS COMUNS: Imagens de um trauma voltam  mente, o que dispara pnico.
TROPEOS DE QUEM FINGE: Inventar um trauma trivial demais para causar o transtorno. No conseguir simular a reao fsica (o suor, os tremores e a acelerao cardaca) que vm com a lembrana.

DFICIT DE ATENO
POR QUE TENTAM FINGIR: Conseguir medicamentos que aumentam a concentrao.
SINTOMAS MAIS COMUNS: Comportamento desatento, desconcentrado, pouco persistente, desorganizado, esquecido.
TROPEOS DE QUEM FINGE: O psiquiatra pode no receitar estimulantes na primeira consulta e tentar outros tratamentos antes.

Fontes: Jair Borges Barbosa Neto e Dartiu Xavier da Silveira, psiquiatras da Unifesp; Michael Sharpe, psiquiatra da Universidade de Edimburgo; Daniel Barros, psiquiatra forense do HC-FMUSP.

PARA SABER MAIS
O que  Psiquiatria Forense  Daniel Martins de Barros, Editora Brasiliense, 2008.


6. ZOOM  QUANDO FIZERMOS CONTATO
So mensagens complexas, cifradas em smbolos e cdigos que explicam quem somos, onde estamos e como vivemos  e esperam algum dia serem encontradas por extraterrestres. Conhea as cartas que enviamos para o espao.
TEXTO / Luiz Romero
DESING / Ricardo Davino

IMAGENS QUE O DISCO LEVA
Na Unio Socitica, uma exposio sobre os Estados Unidos.
Flores de Cerejeira.
Imigrantes mexicanos observados na fronteira dos Estados Unidos.
Montanhas do Colorado.
Terra vista da Lua.
Na Grcia, refugiadas veem o mar pela primeira vez.
Tsunami no Japo, no comeo do sculo 20.
Lanamento de foguete Soyuz, no Cazaquisto.

NO MEIO DO ENTULHO
Qual o melhor jeito de falar com extraterrestres? Em vez de mandar mensagens para os confins do Universo, o artista americano Trevor Paglen preferiu gravar imagens em um disco, colocar esse disco num satlite e mandar a estrutura para bem perto: para a atmosfera da Terra. A explicao: quando formos extintos, a histria da humanidade vai girar para sempre ao redor do planeta, num anel de satlites mortos. E pelo menos um deles, o Echostar, servir para explicar aos possveis visitantes como vivamos. Isso porque ele carrega figuras que representam os humanos, escolhidas depois de anos de pesquisa e reunidas como em uma enciclopdia de uma civilizao antiga e extinta.

SOMOS TODOS NUDISTAS
A sonda Pioneer 10  mais ambiciosa: desde 1972, leva sua mensagem para muito longe da Terra, sendo a primeira estrutura a cruzar a linha que separa o Sistema Solar do resto do Universo. Ela carrega uma tentativa de contato com extraterrestres: uma placa de alumnio banhada em ouro, com figuras imaginadas pelos astrnomos Carl Sagan e Frank Drake. Entre eles, um casal nu.

A PLACA VIAJA GRUDADA NA ESTRUTURA DA SONDA PIONEER.
Eltrons  Uma representao (extremamente) abstrata dos dois estados qunticos de um eltron.
Mapa  O Sol rodeado por pulsares (estrelas com grande quantidade de energia). A distncia entre eles indica a posio da Terra.
Caminho  Uma representao do Sol, dos planetas (com Pluto) e do caminho percorrido pela Pioneer, entre Jpiter e Saturno.
Nave  Atrs do casal, o contorno da estrutura da prpria Pioneer. Uma forma de mostrar qual o nosso tamanho em relao s medidas da sonda.
Humanos  A mo levantada , ao mesmo tempo, um sinal de amizade e uma forma de mostrar que temos polegares, indicao do nvel evolutivo dos humanos.

UM VINIL NO ESPAO
Enquanto a placa da Pioneer tinha apenas cinco elementos, o disco de ouro levado pela sonda Voyager 1, lanada em 1977, carrega centenas de informaes. So 43 barulhos e 115 imagens representativos da Terra, 90 minutos de msica (de Beethoven e Stravinsky a Louis Armstrong e Chuck Berry) e saudaes em 55 lnguas (na mensagem brasileira, uma mulher com sotaque carioca diz paz e felicidade a todos).


